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sexta-feira, 9 de setembro de 2016


Setembro Amarelo quer conscientizar população e prevenir suicídios


  
   Foto: Reprodução/Pixabay
"Provavelmente todos nós conhecemos alguém que já pensou, tentou ou chegou a cometer suicídio", afirma Adriana Rizzo, voluntária do Centro de Valorização da Vida (CVV), uma associação que presta serviço voluntário de apoio emocional e prevenção do suicídio. No Brasil, a cada 100 mil pessoas, quase sete tiraram a própria vida em  2012, segundo a pesquisa mais recente da Organização Mundial da Saúde. Além disso, a OMS afirma que, para cada suicídio, podem ter ocorrido mais de 20 outras tentativas que não deram certo, além de muitas pessoas que consideraram fortemente.

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Apesar de o País ter uma taxa baixa comparado a nações como a Índia, que passa de 30 casos em 100 mil habitantes, o suicídio é considerado um problema de saúde pública. A boa notícia é que, segundo a OMS, nove em cada dez casos poderiam ser prevenidos.
Com o objetivo de quebrar o tabu em torno do tema e ajudar na prevenção, diversas associações se uniram e, desde 2014, promovem no Brasil o Setembro Amarelo. A ideia é reunir, durante um mês, eventos que abram espaço para debates e divulgação do tema. "A campanha é para conscientizar, falar sobre o suicídio. É possível prevenir quando falamos sobre o tema, porque é uma questão de atenção, de cuidado com as pessoas", explica Adriana.
O mês foi escolhido porque 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Monumentos são iluminados com a cor amarela e diversas ações são realizadas, como passeios ciclísticos, caminhadas e abordagens em locais públicos.
"O número de pessoas que gostaram da ideia mesmo sem estar ligadas a uma associação vem crescendo", afirma Adriana. Prova disso é a imagem compartilhada mais de 77 mil vezes no Facebook, com a mensagem: "Setembro Amarelo - Eu disponibilizo meu inbox para desabafos, conversas e conselhos." Apesar da boa intenção, a atitude foi criticada por muita gente, inclusive psicólogos, sob o argumento de que alguém com intenções suicidas precisa, muito além de um ombro amigo, de ajuda profissional. Adriana pondera: "A conversa não substitui o tratamento médico. Mas, muitas vezes, simplesmente falar sobre o que está acontecendo pode fazer com que a pessoa organize as ideias, reflita sobre a situação que a fez chegar a esse ponto."
Segundo Adriana, quem quer ajudar precisa tomar cuidado para não fazer críticas. "Às vezes você se oferece para ouvir, mas faz comentários como 'eu não teria feito desse jeito'. É preciso tentar enxergar o ponto de vista do outro, entender que todo mundo tem seus motivos para tomar uma decisão em determinado momento da vida", explica. Segundo ela, o mais importante é demonstrar que você se importa.
Alguns comportamentos, como deixar de sair com os amigos, demonstrar tristeza por muito tempo ou ter alterações expressivas no humor podem indicar que pessoas próximas precisam de ajuda. "Chame para uma conversa, fale que você percebeu que alguma coisa está acontecendo. Em vez de ficar com receio, toque no assunto. Às vezes a pessoa só precisa falar o que está sentindo", aconselha Adriana.
Outra forma de agir é indicar canais de ajuda, como o próprio CVV. O centro oferece apoio online no site http://www.cvv.org.br/, pelo telefone 141, via Skype (acesso pelo site), ou e-mail (mensagem enviada também pelo site). Em todos os canais, o atendimento é feito por voluntários treinados e a conversa é anônima, com sigilo completo sobre tudo que for dito.

Suicídio cresce 30% no estado de São Paulo, diz estudo

Marília e Ribeirão Preto têm maiores taxas de suicídio do estado.
A morte por sufocação/enforcamento aparece em primeiro lugar.


A mortalidade por suicídio cresceu 30% no estado de São Paulo de 2001 a 2014, mostra o boletim SP Demográfico, da Fundação Seade, divulgado nesta quinta-feira (8). No biênio 2001/2002, foram 4,3 suicídios por 100 mil habitantes, e no biênio 2013-2014, o índice passou para 5,6 por 100 mil habitantes.
sO boletim aborda a mortalidade por suicídio com base nos dados das certidões de óbitos dos Cartórios de Registro Civil de todos os municípios paulistas no biênio 2013/2014. Os dados foram divulgados por causa do Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, no dia 10 de setembro.
A tendência de aumento, além do crescimento do suicídio, também ocorre “pela melhoria na classificação das causas externas de morte”, segundo o boletim. Uma parceria com a Secretaria de Segurança Pública permitiu viabilizou o acesso às informações dos boletins de ocorrência constantes no Infocrim.
Quando se relaciona o número de mortes com a população, as cidades de Marília e Ribeirão Preto têm as maiores taxas de suicídio do estado, 8,6 e 7,5 por 100 mil habitantes, respectivamente. Já SantosSão José dos Campos e Registro ficam entre as menores taxas, abaixo de 5,5 por 100 mil habitantes.
A maior parte das mortes do estado é majoritariamente de homens: 80%. E, destes, 72,3% estavam na faixa etária entre 15 e 64 anos de idade. A morte por sufocação/enforcamento aparece em primeiro lugar tanto para homens (66,3%) quanto para mulheres (43,1%).
Causas
De acordo com o boletim, na maioria dos casos de suicídio consultados “houve algum relato, por parte da testemunha, de que a vítima possuía quadro de depressão, esquizofrenia, estresse ou algum tipo de desilusão, sendo muitas vezes acompanhado de consumo de drogas (lícitas ou ilícitas) e álcool”.
A menor incidência de mortes entre as mulheres é atribuída, principalmente, “à menor dependência de álcool, maior religiosidade, percepção mais precoce de sinais de risco para depressão e doença mental, além de buscarem ajuda com maior frequência em momentos de crise e de participarem mais ativamente de redes de apoio social”.
Já os homens desempenham comportamentos que “predispõem mais ao suicídio, tais como: competitividade, impulsividade, maior acesso à armas, maior sensibilidade às instabilidades econômicas, como desemprego e empobrecimento, etc”.

sábado, 21 de maio de 2016

“Falta coragem para enfrentar o tabu do suicídio”

O jornalista André Trigueiro, autor de livro sobre o assunto, palestra neste sábado em Balneário 

O jornalista André Trigueiro, autor do livro Viver é a melhor opção, estará em Balneário Camboriú neste sábado para uma palestra gratuita sobre suicídio. Vem a convite do Centro de Valorização da Vida ( CVV), que atua na prevenção. 

Repórter da Rede Globo, editor-chefe do programa Cidades e Soluções, professor de Jornalismo Ambiental e comentarista da CBN, Trigueiro se interessou pela invisibilidade do assunto. Seus levantamentos chegaram ao impressionante número de 800 mil suicídios por ano no mundo – uma morte a cada 40 segundos. 

Trigueiro defende a informação como prevenção. A palestra será gratuita, no Hotel Sibara, às 20h. Antes disso, a partir das 19h, receberá o público para autógrafos. 
É possível prevenir o suicídio? 
Em pelo menos 90% dos casos o suicídio é prevenível porque está associado a patologias de ordem mental diagnosticáveis e tratáveis. Onde houver informação clara e objetiva a tendência é o número de casos cair drasticamente. Prevenção se faz com informação. 

Em nossa região, o número de casos é elevado. Você identificou algum fator que leve a essas tendências regionais? 
Há poucas pesquisas sobre este assunto no Brasil. Um problema recorrente em regiões onde a produção agrícola é intensa é o uso intensivo de agrotóxicos expondo os agricultores a riscos para a própria saúde. As substâncias voláteis desprendidas pelo veneno podem ser inaladas e provocar alterações no sistema nervoso que, não raro, causam depressão profunda. Outra questão é a cultura mais rígida dos descendentes de colonos de alguns países onde há menos flexibilidade para lidar com certos assuntos. A severidade e a disciplina, quando exageradas, podem causar muito sofrimento. 

Como agir com pessoas que falam em se suicidar? 
É importante se disponibilizar para um diálogo franco, sem julgamentos, em que seja possível compreender o que se passa. A desagregação familiar e a ruptura do diálogo dentro de casa criam situações de risco. Dependendo da situação, recomenda-se a ajuda de um psicólogo ou psiquiatra. Há serviços gratuitos de atendimento que têm a missão de oferecer atendimento a quem esteja com a ideia suicida ou seja um sobrevivente de si mesmo, que já tenha fracassado na tentativa. Quem já tentou se matar alguma vez é quem mais precisa de apoio, pois o risco de recorrência é grande. 
A saúde pública tem condições de atuar na prevenção? 
Temos desde 2004 uma Política Nacional de Prevenção do Suicídio, mas ela não saiu do papel. O assunto permanece invisível, nem parece que suicídio é caso de saúde pública no Brasil com 32 óbitos a cada dia. Muitos profissionais de saúde saem das universidades sem conhecer essa realidade ou saber como lidar com pessoas que sofrem essa terrível dor existencial. Faltam conhecimento, vontade política e coragem para enfrentar o tabu em torno do suicídio.

terça-feira, 21 de julho de 2015

OMS publica relatório sobre a Prevenção ao Suicídio

OMS
Mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos ­­­– a cada 40 segundos uma pessoa se suicida no mundo, de acordo com o primeiro relatório global da OMS sobre a prevenção do suicídio. Cerca de 75% dos suicídios ocorre em países de baixa e média renda.
Envenenamento, enforcamento e armas de fogo estão entre os métodos mais comuns de suicídio global. Evidências da Austrália, Canadá, Japão, Nova Zelândia, Estados Unidos e vários países europeus revela que limitar o acesso a estes meios podem ajudar a evitar o suicídio. Outra chave para a redução de mortes por suicídio é um compromisso dos governos nacionais para a criação e implementação de um plano de ação coordenado. Atualmente, apenas 28 países são conhecidos por ter estratégias nacionais de prevenção do suicídio. 
Fenômeno global
O suicídio ocorre em todo o mundo e em qualquer idade. Mundialmente, as taxas de suicídio são mais altas em pessoas com 70 anos ou mais. Em alguns países, no entanto, as taxas mais elevadas são encontradas entre os jovens. Notavelmente, o suicídio é a segunda principal causa de morte em 15-29 anos de idade no mundo todo.
"Este relatório é um apelo à ação para resolver um grande problema de saúde pública que foi um tabu por muito tempo", disse o Dr. Margaret Chan, Directora-Geral da OMS.
Em geral, mais homens morrem por suicídio do que as mulheres. Nos países mais ricos, três vezes mais homens morrem por suicídio do que as mulheres. Homens com 50 anos ou mais são particularmente vulneráveis.
Em países de baixa e média renda, adultos jovens e mulheres idosas têm maiores taxas de suicídio do que os seus homólogos de países de alta renda. Mulheres com mais de 70 anos são duas vezes mais propensas a morrer por suicídio do que as mulheres com idades entre 15-29 anos.
Casos são evitáveis
A redução do acesso aos meios de suicídio é uma maneira de reduzir as mortes. Outras medidas eficazes incluem relatórios responsáveis ??do suicídio na mídia, tais como evitar linguagem que sensacionalizam o suicídio e evitar a descrição precisa dos métodos utilizados, e identificação e tratamento precoces dos transtornos por uso de substância mental e nas comunidades e pelos profissionais de saúde, em particular.
Cuidados como acompanhamento de profissionais de saúde por meio do contato regular, inclusive por telefone ou visitas domiciliares, para as pessoas que tentaram o suicídio, juntamente com a prestação de apoio da comunidade, são essenciais, porque as pessoas que já tentaram o suicídio são as que correm maior risco de tentar novamente. 
“Não importa onde um país está atualmente na prevenção do suicídio”, disse o Dr. Alexandra Fleischmann, cientista do Departamento de Saúde Mental e Abuso de Substâncias da OMS, “podem ser tomadas medidas eficazes, mesmo começando a nível local e em pequena escala.”
A OMS recomenda países envolvem uma série de departamentos governamentais no desenvolvimento de uma resposta coordenada. Compromisso de alto nível é necessário não apenas no setor da saúde, mas também no âmbito da educação, emprego, bem-estar social e departamentos judiciais.
“Este relatório, a primeira publicação da OMS desse tipo, apresenta uma visão abrangente do suicídio e tentativas e esforços bem sucedidos de prevenção do suicídio em todo o mundo. Sabemos o que funciona. Agora é a hora de agir”, afirmou o Dr. Shekhar Saxena, diretor do Departamento de Saúde Mental e Abuso de Substâncias da OMS.
O lançamento do relatório vem apenas uma semana antes do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, observado em 10 de setembro de cada ano. O Dia em que oferece uma oportunidade para uma ação conjunta de sensibilização e prevenção do suicídio em todo o mundo.

quarta-feira, 17 de junho de 2015



Uma pessoa morre vítima de suicídio a cada 45 minutos no Brasil

Especialistas denunciam falta de campanhas de saúde pública para tratar o tema. Segundo a OMS, 90% dos casos podem ser evitados.


Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais  (EM/ D.A Press)
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No Brasil, duas pessoas tentam se matar a cada 45 minutos e, no mesmo intervalo de tempo, uma delas consegue levar a cabo a própria vida. Quem já tentou alguma vez o suicídio terá 50% de chance de, em algum momento na vida, voltar a praticar esse ato de extrema fragilidade da alma humana, alerta Humberto Corrêa, de 45 anos, suicidólogo pós-doutorado por universidade na França e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com base nos últimos dados divulgados pelo Datasus, em 2012. Quem tenta suicídio pede ajuda, ao contrário do que diz o mito, portanto. O tema, cercado de tabus, será amplamente discutido entre 11 e 13 de junho em Belo Horizonte, durante o 1º Simpósio Latino-americano de Prevenção ao Suicídio.



De maneira empírica, as tentativas frustradas de suicídio chegam 24 horas por dia aos voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV). “A melhor maneira de prevenir o suicídio é desabafar. Muitas vezes, as pessoas ligam para dizer que se sentem sozinhas e solitárias e acabam contando que estão com vontade de morrer. Em geral, as pessoas do entorno não entendem essa dor e tratam o sofrimento delas como algo banal. Desconversam, dizem pra deixar para lá ou só que vai passar”, diz a pedagoga Klênia Batista, uma das integrantes da equipe de 45 voluntários do CVV. O serviço de atendimento e ajuda gratuita por telefone vai completar 50 anos durante a realização do encontro em BH.
Entre os relatos compartilhados com discrição por voluntários do CVV, de conteúdo altamente sigiloso, estão casos de pessoas que teclaram o 141 dizendo estar com insuficiência hepática por já terem ingerido chumbinho; que passaram a ter problemas gástricos devido à ingestão de uma superdose de medicamentos ou que estão obrigadas a usar roupas de mangas compridas para esconder cicatrizes de cortes nos pulsos.

HOMENS X MULHERES 
Segundo Humberto Corrêa, os principais grupos de risco de suicídio são jovens entre 15 e 30 anos e idosos acima de 65, sendo que os homens morrem de três a quatro vezes mais do que as mulheres, embora elas tentem se matar de três a quatro vezes mais do que eles. “Ainda não se sabe exatamente o porquê, mas os dados epidemiológicos mostram que eles usam métodos mais violentos, como armas de fogo ou pular de algum lugar. Já as mulheres, em geral, optam pela ingestão de substâncias, como remédios controlados em excesso”, completa.

Uma das descobertas mais importantes da medicina dá conta de que é possível prevenir o suicídio em 90% das vezes, até porque a totalidade dos casos tem origem em transtornos psiquiátricos, especialmente a depressão, que não foram corretamente diagnosticados e tratados. “O suicídio está sempre associado a uma doença mental, acompanhado de um fator estressor do momento que pode funcionar como gatilho”, esclarece o médico, citando como prováveis desencadeadores a morte de familiares, perda de emprego e desilusões amorosas. Segundo ele, se o paciente depressivo que tentar suicídio recusar o tratamento, insistindo em se matar aos poucos, poderá ser tomada medida extrema de internação involuntária, desde que seja feita a comunicação em 24 horas ao Ministério Público.

DEBAIXO DO TAPETE 

“Quando um assunto é tabu, não o discutimos abertamente, não estudamos, não pesquisamos. Jogamos para debaixo do tapete. Não existem campanhas de saúde pública para tratar o tema”, denunciou Humberto Corrêa, em artigo. Vice-presidente da Associação Latino-americana de Suicidologia, o médico observa que o Brasil publicou, em 2006, sua estratégia nacional de prevenção ao suicídio, mas, “ao contrário de outros países, ainda não a tirou do papel”. Na Inglaterra, o diagnóstico e tratamento rápido dos indícios de casos proporcionou redução dramática dos índices.

“Há momentos na vida em que muitos de nós perdemos a coragem de seguir em frente. Essa situação é mais frequente do que se imagina. Em casos extremos, o desânimo, a melancolia ou a depressão podem precipitar a ideia do suicídio, problema de saúde pública no Brasil e no mundo. O silêncio em torno do assunto agrava a situação. Falar de suicídio, portanto, pode salvar vidas”, é o que escreve André Trigueiro, autor do livro Viver é a melhor opção – A prevenção do suicídio no Brasil e no mundo, com previsão de lançamento em BH em 12 de junho.

domingo, 24 de maio de 2015

É possível prevenir o suicídio? Saiba o que o psicólogo diz a respeito do tema

Segundo a OMS, mais de 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos no mundo, e o Brasil é o oitavo país em número de suicídios


Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), divulgados em 2014, chamam a atenção de governos para o suicídio, considerado “um problema de saúde pública” que não é tratado e prevenido de maneira eficaz.
Segundo a OMS, mais de 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos no mundo, e o Brasil é o oitavo país em número de suicídios.
Esses casos chocam não só familiares e amigos de quem comete o ato, mas as pessoas de um modo geral, que tentam entender o que leva alguém a tirar a própria vida.
Para falar sobre o assunto, o psicólogo Ary Nepote e também a presidente do Sindicato dos Jornalistas, Marly Caldas, estiveram no programa Acorda Cidade, onde esclareceram algumas questões sobre a abordagem jornalística do suicídio e os fatores que podem levar uma pessoa a cometer o ato.
Acorda Cidade: O que leva uma pessoa a cometer suicídio? A psicologia explica?
Ary Nepote: Vivemos atualmente um tempo de sobrecarga, que desenvolve muito nas pessoas o enfraquecimento dos vínculos sociais e afetivos, produzindo, em consequência, uma individualidade, competição e agressividade.
Esses fatores enfraquecem os vínculos, diminuem a afetividade nas aproximações imediatas, que são os membros de uma família, enfraquecendo o desenvolvimento das estruturas da personalidade de uma criança e de um adolescente para suportar esses momentos de sobrecarga.
O apego e a necessidade de carinho provocam uma angústia natural na criança quando ela busca esse apego na direção dos pais. Essa angústia que essa necessidade provoca só é controlada quando os pais se aproximam e se fazem presentes na vida dela.
Administrando essa angústia, portanto, e suprindo essa necessidade de afeto, fortalece a criança, em termos psíquicos, e a estrutura dessa personalidade que o fortalece para enfrentar as diferenças, a sobrecarga e as dificuldades que a vida vai oferecer.
AC: Então é uma coisa que vem desde criança?
Ary Nepote: Sim, vem lá de baixo. A dependência da criança quando está no útero de uma mulher é completa. Essa criança está automaticamente satisfeita em suas necessidades. Ao sair, cria-se uma distância entre a satisfação dessa necessidade e o acudimento da mesma.
Essa distância é que vai produzindo e fazendo acontecer os impulsos emotivos primitivos como raiva, ódio, agressividade. Na medida em que esse aconchego se torna, de alguma maneira, cuidadoso, a mãe demonstra um amor no tipo de atendimento dessas necessidades, a criança se fortalece na confiabilidade dos seus vínculos com o mundo.
O enfraquecimento desse tipo de aconchego no início da vida predispõe a uma espécie de enfraquecimento da confiança e consequentemente da afetividade que, de certo modo, intenciona seu gesto com a vida.
AC: O suicídio é motivado pela depressão?
Ary Nepote: O processo de viver é um vínculo que se estabelece na relação entre criança e os pais ou seus cuidadores. É um processo lento e contínuo, pois depende de duas condições para que tal ocorra.
Primeiro é o estabelecimento de limites, que é realmente adequado a essa aproximação, esse cuidado que os pais têm com os filhos no tocante a regras e normas. A segunda, é justamente o estabelecimento de datas, é saber esperar.
O prazer real só ocorre na vida quando sou capaz de esperar pelo objeto desejado. A expectativa que desenvolvo nessa espera me causa mais prazer do que realmente a consecução do fato. Isso se chama desejo.
A maior herança que os pais deixam para os seus filhos é exatamente essa proposta do desejo de intencionar seus gestos com prazer para obter na realidade a satisfação do viver.
Quando isso falha em função de acontecimentos históricos da própria vida do indivíduo, há uma empatia, de desânimo, desse íntimo com a realidade.
Esse enfraquecimento desmotiva o indivíduo a viver, pois ele atribui o seu sofrimento à vida e busca a compensação numa proposta do encontro com o eterno, que é a morte.
AC - O que causa a depressão?
Ary Nepote: É uma deficiência do amor próprio, do autoconhecimento que o indivíduo possui com relação a se encontrar em função das falências que essa pessoa já traz de abandono, de dificuldade, de satisfação dessa angústia de apego que ele demonstrava quando criança ou adolescente e que as famílias não cuidaram disso.
Hoje a grande parte dos pais é queixosa e demonstra uma intranquilidade em relação aos objetivos de vida. Um exemplo é no trânsito, onde alguns pais com os filhos cometem delitos. Depois qual é o tipo de proposta que ele oferece para dar limites a essa criança?
Esses acontecimentos afetam não só a credibilidade no investimento ao outro, como até a própria proposta de autoestima, pois enfraquece quando você percebe que o cuidado que deveria ter não é adequadamente ministrado pelo modelo que você tem, ou pelo cuidador que lhe está próximo.
AC: Sempre se falou em depressão, mas porque está aumentando muito?
Ary Nepote: No século passado fizemos tudo, falamos tudo. Atualmente há muito mais rearranjo do que criatividade. Isso inibe a proposta afetiva de intencionar gestos completos na direção do outro.
Existe uma terapia fundada por uma escola americana por um grupo de psicólogos, chamada terapia do abraço e eles adéquam os familiares a tipos diferentes de abraços, para que possa existir a aproximação, o aconchego, para ver se supre com isto, a alma, que é carente de afeto.
Em uma época de sobrecarga, como vivemos, onde o individualismo se torna bastante intenso, a competição é algo exagerado e consequentemente a agressividade surge e é obvio que a confiança no outro fica prejudicada.
AC: Como o jornalismo lida com a informação do suicídio?
Marly Caldas: É bastante delicado. Durante muito tempo a imprensa se calou. Parece que houve um consenso de que não se deveria divulgar em respeito à dor, a uma possível culpa de alguém, em respeito à família.
Inclusive os manuais de imprensa dos grandes grupos de comunicação se calam ou aconselham evitar noticiar casos de suicídio. Só que isso não é um consenso entre a imprensa geral e, por exemplo, psiquiatras ou psicólogos. O trabalho da imprensa é informação e tem que ser dada com ética, precisão e com respeito à sociedade.
O que a gente pensa é que a notícia tem que ser dada, porém com responsabilidade. A questão não é dar a notícia e sim a forma como ele deve ser dada. Temos uma função social muito importante de formação da sociedade.
Da mesma forma que podemos contribuir para ajudar com aspectos positivos, podemos também prejudicar, dependendo da forma como essa informação é passada.
Qual é a solução? É ter a preocupação de passar a notícia com técnica e ao mesmo tempo saber que do outro lado as pessoas querem, além da informação, conforto.
É pra isso que a gente tenta preparar o profissional de imprensa, para que saiba adequar a notícia para a sociedade e, além disso, levar um debate sobre causas e consequências.
AC: Casos de suicídio podem influenciar outros?
Ary Nepote: O suicídio é a maneira ilusória de eliminar uma dor. O ideal é a pessoa procurar terapia, auxílio, procurar pessoas e isso deve ser dito ao indivíduo que sofre disso.
Marly Caldas: Aí entra a função da imprensa, que é direcionar para esses tratamentos, através de matérias, que além de dar informações sobre o suicídio, direciona para a prevenção.
Esse papel da imprensa é fundamental, já ajudou muita gente e continuará ajudando. A partir do momento que se trata um fato com responsabilidade, com ética, com respeito ao cidadão e à comunidade, vamos ajudar a prevenir diversas patologias sociais.
AC: Quais são os comportamentos estranhos de quem está com depressão?
Ary Nepote: De repente o estilo de vida do indivíduo diminui, ele se torna esquivo, arredio, evita contatos, fica mais tempo sozinho e se prende de uma maneira compulsória nos aparelhos de comunicação online.
Esses aparelhos dão a sensação ilusória do desenvolvimento da inteligência, em função de informações rápidas que o indivíduo tem. É como se ele pudesse armazenar e ter críticas sobre isso, mas a rapidez dos fatos impede que a memória trabalhe nessa direção, então ilude em termos de conhecimento.
Mas ao mesmo tempo o sentimento rebaixa, pois ele não estabelece contatos, ele enfraquece a relação imediata que realmente simboliza o afeto.

Médicos revelam que mundo está perdendo a guerra contra o suicídio

"Não estamos diagnosticando direito nossos pacientes", diz psiquiatra

Traumas de infância são fatores que podem levar ao suicídioThinkstock
“Estamos perdendo a guerra para o suicídio”. A afirmação alarmante é do psiquiatra e professor da USP Mario Francisco Juruena, que explica que, embora não haja uma forma de determinar com plena certeza que um indivíduo vá se matar no futuro, os médicos têm, sim, instrumentos para prever as chances que pacientes graves carregam de tirar a própria vida.
A principal chave da prevenção estaria no tratamento dos traumas de infância. Cicatrizes emocionais que os adultos carregam, de feridas abertas quando eram crianças, podem antecipar muitos dos riscos de suicídio — separação materna, estresse, maus tratos, negligência, perdas precoces e abusos seriam, de acordo com o psiquiatra, alguns dos principais fatores.
Desta maneira, o papel do médico é monitorar o histórico do paciente, dando atenção a traumas severos em qualquer idade, mas mais especificamente na primeira infância e na vida intrauterina.
Isso porque, como conta o psiquiatra, quanto mais precoce o trauma, maior ele será, já que o sistema nervoso de uma criança não está preparado para a agressão, apenas para a afetividade.
— São situações que vão desencadear transtornos afetivos, dependência de substâncias e também o suicídio. Temos que investigar tudo isso a fundo. Nossos índices de suicídio no mundo hoje em dia são iguais aos dos anos 60. Evoluímos no tratamento da aids, do câncer, mas do suicídio, não. Não estamos diagnosticando e prevendo direito nossos pacientes.
Outros fatores de risco, que aumentam as chances de um suicídio no futuro, são o histórico familiar — indivíduos com parentes que tiraram a própria vida correm mais risco de se matar do que outros que não têm registros similares na família — e o sexo do paciente.
De acordo com Juruena, mulheres são muito mais sensíveis ao estresse desde pequenas.
— O trauma e o estresse crônico vão se sobrepor onde houver a vulnerabilidade.
Profissões criativas também constituem um sinal de alerta para os psiquiatras. Um estudo feito em 2013, na Suécia, concluiu que escritores, por exemplo, estão entre os profissionais com maior índice de diagnósticos de esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão, ansiedade, abuso de álcool e suicídio, como relata Helio Elkis, psiquiatra e coordenador do Programa de Esquizofrenia da Faculdade de Medicina da USP.
Psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), Daniel Martins de Barros acrescenta que um estudo de sua entidade comprovou que pacientes esquizofrênicos e seus parentes tinham mais tendência a escolher empregos relacionados a artes visuais, e que indivíduos bipolares têm propensão a carreiras criativas sobretudo na área cientifica.
Barros chama a atenção, ainda, para a relação entre comediantes e o suicídio.
O ator Robin Williams, que tirou a própria vida em 11 de agosto de 2014, e o brasileiro Fausto Fanti, que se matou um mês antes, engrossam as estatísticas e provam que a figura do palhaço triste, retratada em personagens clássicos há décadas, reproduz com perfeição a mente angustiada dos humoristas, escondida atrás de uma persona feita para alegrar os outros.
— Os comediantes têm uma maior abertura a ideias novas. Eles têm menos autocontrole, são mais impulsivos, sentem menos emoções positivas, têm menos capacidade de se alegrar, menos amabilidade, e não possuem uma busca social.
Para Barros, os humoristas vivem no limite, buscando o equilíbrio entre agressividade e criatividade, e isto os encaminha ao perigo do suicídio. Carregam traços de doenças psicóticas — encontram associações e padrões onde eles não estão explícitos — e da bipolaridade, como a impulsividade e o pensamento acelerado. Além disso, apresentam maior distorção cognitiva e dificuldade de se focar.
— O humor é uma violação. Já tivemos muitas polêmicas com humoristas no Brasil porque eles saíram da faixa cinzenta do que é próximo de nós e foram para a faixa do que nos viola. Fizeram piadas com mulheres estupradas, por exemplo, algo que é uma violação, sim, como pede o humor, mas que é muito próximo de nós, então não tem graça.
Ainda assim, o psiquiatra evita falar em determinismo, recomendando apenas mais prevenção e diagnósticos mais certeiros.
— O suicídio é prevenível, sim, e várias mortes já poderiam ter sido evitadas.
A jornalista viajou a Porto Alegre (RS) a convite do World Congress on Brain, Behavior and Emotions